Nosso 11 de Setembro de 2001

Tenho visto essa pergunta ser repetida em programas de televisão, jornais, revistas: o que mudou depois do 11 de setembro de 2001?

Eu diria: muita coisa. Pois nesse dia, há exatos 10 anos, começava uma parceria que iria render vários frutos, e que ainda vai render muitos outros. Esse blog é um deles.
Foi no 11 de setembro que eu e o Curia iniciamos nossa parceria de trabalho. Naquele dia estávamos em um ônibus, fazendo a viagem de 24h que separa Porto Alegre de Campo Grande, etapa inicial de um roteiro que nos levaria à Bolívia, mais precisamente ao Chapare cochabambino, onde queríamos conhecer o movimento cocalero.

Já éramos amigos há bastante tempo, talvez outros 10 anos. Mas nunca havíamos trabalhado juntos. Mas em abril daquele ano, após passar três meses rodando pelas terras latino americanas, encontrei uma Bolívia em que a mobilização política era intensa, e me surpreendia que quase nada se falava aqui sobre aquele cenário vibrante. Voltei de lá com a ideia de retornar. E pra esse retorno, já tinha um parceiro em mente: Marcelo Curia, amigo que conheci através do montanhismo, e que era fotógrafo dos bons. Sabia que ele teria a sensibilidade e a técnica necessárias para registrar aquele cenário. E o convite foi aceito. Alguns meses depois, estávamos cruzando a mesma estrada pela qual eu havia cruzado meses antes, só que agora em sentido contrário.

Foi a primeira de várias viagens que fizemos juntos, sempre com o objetivo de registrar, investigar, conhecer mais a fundo as questões sociais, políticas, históricas e culturais de nosso continente. E aquela primeira viagem foi bastante simbólica, pois nos mostrou que havia um caminho muito bonito a ser percorrido.

Tínhamos saído daqui com um objetivo inicial, mas reconhecidamente com pouco ou nenhum planejamento afora saber o nome das cidades onde deveríamos ir: Cochabamba e, após, Villa Tunari, centro nevrálgico da mobilização cocalera. Mas o nosso misticismo estradeiro se provou correto: os bons espíritos acompanham aqueles que pegam a estrada tomados por não muito mais que as boas vibrações.

Em Cochabamba conhecemos a comunidade de estudantes brasileiros que vão para lá cursar Medicina, e já no primeiro dia estávamos alojados na casa de um grupo de estudantes. Conhecemos pessoas das mais diferentes partes do Brasil que estavam por lá batalhando por seus sonhos. Nos contaram suas alegrias, suas angústias. Nos falaram da máfia que vende vagas em Universidades privadas no Brasil.

Estivemos no encontro da AGP, Assembléia Geral dos Povos, que reúne diferentes movimentos sociais de todas as partes do mundo. Acompanhamos o encontro, onde fomos abertamente hostilizados pelos militantes brasileiros que encontramos por lá, pelo simples fato de que não estávamos lá representando algum movimento ou agremiação daqui. Estávamos lá por nós mesmos e pela nossa vontade de conhecer.

Estivemos no Chapare, junto ao movimento cocalero. Com os cocaleros cruzamos estradas de terra, nos embrenhamos em matos, visitamos famílias que estavam sendo pressionadas a abandonar o cultivo de coca. Vivenciamos a experiência de se estar numa zona militarizada, onde os passos são vigiados, e a frequência dos veículos militares pelas ruas compunha um quadro de tensão.

Conhecemos várias pessoas que naquele momento construíam sua trajetória na história do país. Viajamos junto ao então deputado Evo Morales, que se tornou nosso amigo e com o qual, ao final da viagem e com outros companheiros cocaleros, compartilhamos uma mesa de festa regada a cervejas, pique a lo macho, cumbias e a mais pura irmandade latina. Alguns daqueles companheiros iriam ocupar cargos ministeriais no governo do futuro presidente.

Várias coisas aconteceram depois dali, como consequência daquela primeira investida dessa parceria que hoje celebra 10 anos. Várias novas histórias, que foram publicadas aqui e nos países hermanos. O início da minha trajetória acadêmica, que tem a Bolívia como foco principal. Amigos queridos que, mesmo distantes, são lembranças frequentes: Grover Arispe, André Evangelista e Marcelo Dadalto são alguns deles. Mas se há um fato a celebrar hoje, é esse aniversário que tantas coisas boas nos trouxe, e em especial a grande amizade que nos une nesse caminho.

 

Ah, o atentado ao World Trade Center? Bom, ele aconteceu enquanto estávamos dentro do ônibus. Fomos tomar conhecimento meio que por acaso quando, na parada para almoço, fui buscar algo para beber num restaurante de estrada e vi todos olhando atentamente para a televisão. Saí de lá e disse ao Marcelo: “Aconteceu alguma coisa estranha nos Estados Unidos”. Mas afora as poucas horas em que estivemos na rodoviária de Campo Grande esperando pelo ônibus que nos levaria a Corumbá, tivemos poucas informações sobre os acontecimentos. No dia seguinte já estávamos dentro do famoso “Trem da Morte”, para 20 horas de pura bolivianidade. Estávamos mergulhando numa América Latina profunda, um mundo no qual, em razão da influência direta dos Estados Unidos no programa de erradicação dos cultivos da folha de coca, os tais atentados tinham uma lógica não de todo incompreensível.

Imagens © Marcelo Curia

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Agosto – Mês da Pachamama

Não sei se isso serve pra toda a cultura ocidental, mas o fato é que ao menos por aqui (Brasil) o mês de agosto é tido como um mês de mau agouro. “Agosto, mês do desgosto”, ou “o mês do cachorro louco”, são expressões que muitos já devem ter escutado. Bastante diferente é a relação dos povos andinos com o oitavo mês do calendário. Para eles, agosto é mês de festa, mês de celebrar uma das principais divindades do panteão andino: a Pachamama.

O termo Pachamama – normalmente traduzido como “Mãe-Terra” – refere-se a “Pacha”, em vocabulário compartilhado tanto por quechuas quanto por aymaras para designar o “espaço-tempo” vistos em sua relação conjunta, e não como instâncias isoladas entre si. É, assim, uma expressão de significado amplo, expressando toda uma cosmovisão na qual se vê a terra como ser vivente com o qual os povos andinos estabelecem uma relação de complementaridade, já que é dessa relação harmoniosa que poderão receber os meios necessários à sua subsistência. Assim, em especial no primeiro domingo de agosto, mas também ao longo de todo o mês, as comunidades andinas rendem homenagens à Pachamama, fazendo oferendas para que ela retribua com sua fertilidade e abundância.

Fomos saber dessa história um tanto por acaso. Foi há alguns anos, num domingo, poucos dias antes de eu e o Curia encerrarmos uma estada de uma semana em Potosí, na Bolívia, quando fomos até o Cerro Rico para uma última visita de entrevistas e fotos. Estranhamente, o cerro estava praticamente vazio: não se via a movimentação rotineira de mineiros, afora umas poucas mulheres e crianças na parte baixa da montanha. E, por vezes, um pipocar de fogos de artifício que não se sabia bem de onde vinham. Foi então que um dos garotos com quem ficamos conversando nos explicou o motivo, e nos convidou a encontrar uma das festividades que estavam acontecendo em pontos isolados da montanha.

 

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Alter-Latina: 1 Ano !!!

Pois é: hoje completamos um ano da primeira postagem do Alter-Latina.

Foi um ano em que conseguimos dar forma a este desejo antigo, de dividir nossas andanças e os materiais recolhidos ao longo do caminho – e os que continuam chegando a cada dia – com todos aqueles que como nós nutrem essa chama latinoamericanista, os que acreditam nas gentes dessas terras e a esperança num porvir de maior justiça.

Um ano de compartilhar músicas, documentos, alegrias e indignações, de lembrar viagens antigas, um ano de retomar a estrada.

Ainda somos principiantes nesse caminho novo que o Alter-Latina vem percorrendo e, com certeza, ainda há muita coisa a se fazer. Mas, de todas as formas, é um dia de alegria que queremos compartilhar com todos os que nos honram com sua visita, mesmo que eventual. Acreditamos que são companheiros de uma luta que não cessa.

E a comemoração?

Será amanhã, no Comitê LatinoAmericano, onde faremos a primeira noite do projeto “Cancioneria Latina”: uma noite rock latino em versões acústicas. As informações estão no convite que você vê abaixo.

Aparece lá pra brindar com a gente!

Abraços

Marcelo Câmara & Marcelo Curia

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Che Guevara e Ultramen juntos !!!

© Marcelo Curia – La Higuera – Bolívia – 2003

Não, isso não é nenhum filme trash. O (a) Ultramen em questão é a banda portoalegrense recentemente (e infezlimente) extinta. Há alguns anos fiz essa versão mixando a música “General”, do álbum Olelê, com uma parte do discurso feito pelo Che na ONU em 1964. Me arrisco a dizer que a mixagem ficou bem bacana, ainda mais levando em conta a falta de habilidades profissionais neste quesito deste que escreve. E afora a questão musical, as temáticas me pareceram ser naturalmente mixáveis.

Ouve no playlist abaixo a música. E pros que como eu são saudosos dessa que foi uma das melhores bandas surgidas por aqui, confere na página dos hermanos do Rebel Sounds alguns clássicos dos caras.

(Com essa postagem encerramos essa pequena série de recordações em homenagem a Ernesto Guevara de la Serna, o Che. Aos que acompanharam os relatos e sentiram a velha e boa compulsão estradeira, vai nossa dica – parafraseando o nome de um disco dos Novos Baianos – “caia na estrada e perigas ver!”. Abraços!)

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San Ernesto de la Higuera

As imagens capturadas na época mostram que uma multidão foi até a lavanderia que fica nos fundos do hospital de Vallegrande quando o corpo do Che foi oficialmente apresentado pelos militares bolivianos. Todos queriam ver quem era a pessoa que havia mobilizado o exército em meses de perseguição, e alterado toda a rotina da região. Foi permitido que as pessoas formassem fila e pudessem se aproximar uma a uma do corpo estendido na maca colocada sobre o tanque de lavar roupas do hospital.

© Freddy Alborta – Vallegrande – Bolívia – 1967

Foi dessa aproximação que surgiu o mito: o corpo do Che, de olhos insistentemente abertos, se parecia muito com o corpo do Cristo baixado da cruz. E acabou gerando mais pena e comoção do que a celebração de uma vitória, como pretendiam os militares.

© Marcelo Curia – Vallegrande – Bolívia – 2003

Nascia um mito que, desde então, ganhou alguma força. A história do guerrilheiro ganhou contornos mais simplistas que despertaram a simpatia dos camponeses: era um homem bom que veio até ali para lutar por uma gente que não era a sua, e que acabou sendo perseguido e morto por isso. San Ernesto de la Higuera.

© Marcelo Curia – Vallegrande – Bolívia – 2003

Não dá pra dizer que exista um culto a esse santo popular que, a bem da verdade, é pouco ou nada mencionado. Mas é fato que o Che é visto como uma alma boa por aquelas pessoas humildes educadas na religiosidade católica. E como boa alma que é, pode interceder por aqueles que recorrem a ele em suas orações. As fotografias penduradas em paredes, onde a imagem do guerrilheiro aparece próxima às de outras santidades do panteão católico, mostram essa espécie de acolhida tardia (e inusitada) ao velho Ernesto Guevara de la Serna. O Che.

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As mãos de Susana

(Retomamos aqui as postagens sobre nossas andanças em Vallegrande e La Higuera, e sobre as histórias e pessoas que cruzamos por lá)

No dia em que o Favio nos levou para conhecer a Susana Ocinaga, no mercadinho que ela mantinha junto da sua casa, ela havia sofrido um pequeno acidente doméstico em sua cozinha onde tinha queimado uma das mãos, e não estava nos seus melhores dias. Nos recebeu com razoável antipatia, e acho que só não nos enxotou porque estávamos com ele, que ela considerava um bom amigo.

Nossa visita tinha um motivo: em 1967 Susana era enfermeira no hospital de Vallegrande, e foi a pessoa que recebeu a missão de preparar o corpo do Che para a apresentação que os militares fariam naquela tarde. Os milicos estavam preocupados em comprovar que o guerrilheiro procurado há meses tinha realmente morrido, pra evitar que outros fossem para lá para somar-se a ele ou mesmo resgatá-lo. Por isso quiseram deixar o corpo o mais reconhecível possível, e coube a Susana limpar o sangue e pentear os cabelos do guerrilheiro executado. Ela nos contou que o que a surpreendeu foi que os olhos do Che se mantinham abertos, e ele não tinha aparência de um morto.

Os dias se passaram, a dor das mãos queimadas também, e logo a Susana já nos recebia com sorrisos e abraços. O que lhe permitiu alguns desabafos: ela sabia que era procurada pelos eventuais turistas-guevaristas que iam até ali, mas a honra de ter tido o corpo do Che aos cuidados das suas mãos não mudara a realidade da sua vida. Era enfermeira aposentada, mas tinha de seguir trabalhando pra ter alguma renda. Mas isso não mudava sua admiração por esse personagem que, como ela disse, deixou seu sangue para ser bebido por aquelas terras. Pra quem sabe, um dia, regar os frutos que a guerrilha não pôde dar.

Fotos © Marcelo Curia – Vallegrande – Bolívia – 2003

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Quebrada del Churo

© Marcelo Curia – Quebrada del Churo – Bolívia – 2003

A Quebrada del Churo foi o lugar da última batalha do Che. Foi lá que, após alguns dias cercado nesse vale íngreme e cheio de uma vegetação espinhenta, ele foi enfim encontrado junto com os demais guerrilheiros, e capturado após levar um tiro na perna e ficar sem seu fuzil. Apenas quatro guerrilheiros conseguiram escapar daquele cerco, entre eles o boliviano Inti Peredo e o (atual) general cubano Harry Pombo Villegas.

© Marcelo Curia – Quebrada del Churo – Bolívia – 2003

A quebrada fica a umas duas horas de caminhada de La Higuera, e nosso guia nessa jornada foi Agustin, morador de lá que havia recebido treinamento do Favio. Uma jornada realmente emocionante, pois a versão do Agustin para os fatos, contada com seu linguajar simples e com sua personalidade humilde enquanto baixávamos até o lugar do combate, deram toda uma poética aos acontecimentos.

© Marcelo Curia – Quebrada del Churo – Bolívia – 2003

Foi o Agustin, encostado na pedra onde supostamente o Che foi capturado, quem nos falou que a intenção dele (o Che) era a de construir uma escola e um posto médico a cada povoado boliviano. E mesmo que esse projeto do guerrilheiro não tenha registro conhecido, aquelas palavras me pareceram mais ser a tradução do anseio daquelas pessoas, trazido pela fala tranquila do nosso guia.

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A cama do Moisés – ou como chegar a La Higuera

© Marcelo Curia – Valle del Rio Grande – Bolívia – 2003

Não foi muito fácil chegar a La Higuera. O povoado fica a algumas horas de Vallegrande, mas não existe ônibus que faça a ligação entre os dois lugares. O meio de transporte mais frequente são os caminhões, mas no dia em que eu e o Curia íamos pra lá, na companhia do  Favio, da Ester e do Alca, o caminhão quebrou e ficamos na mão. O jeito foi alugar um táxi junto com um morador de La Higuera, Moisés, que precisava levar o estrado e colchão de uma cama de casal para lá, mas queria alguém que dividisse os custos com ele. Fomos então em seis pessoas mais um cachorro num carro velho e com plásticos no lugar de vidros, enfrentar quase quatro horas de estrada de chão batido pra, enfim, conhecer o lugar onde havia morrido o Che.

A viagem nos deu uma idéia de como era a região percorrida pela guerrilha. Naquela época do ano (estávamos em fins de agosto) era a estação seca, e tudo se assemelhava a um imenso cerrado, com relevo bastante acidentado. Um terreno nada fácil pra percorrer com mochilas e armamentos, como haviam tentado os guerrilheiros.

© Marcelo Curia – Valle del Rio Grande – Bolívia – 2003

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Un abrazo revolucionário

© Marcelo Curia – La Higuera – Bolívia – 2003

Sempre tive vontade de conhecer Vallegrande e La Higuera, os dois lugares mais marcantes nos fatos que se relacionam com a morte de Che Guevara, mas não tinha tido a oportunidade até que decidimos, eu e o Curia, irmos pra lá para fazer registros em foto e texto de como era a região. Tínhamos vários motivos pra pensar essa viagem: a inegável admiração pelo Che, o fato de nunca encontrarmos fotos atuais daqueles lugares, mas também  – e talvez o principal – saber o que tinha ficado do Che por lá. Era mesmo o santo popular que alguns diziam? Haviam guevaristas na região? Museus, roteiros turísticos, hotéis?

Foram alguns meses de pré-produção para a viagem, e nesse meio tempo diversas pesquisas pela internet para achar contatos em Vallegrande, cidade capital da província de mesmo nome, e base pro nosso trabalho. Foi nessas pesquisas que encontrei um endereço de mail, numa página de um encontro/acampamento que tinha ocorrido em La Higuera um ano antes, pro qual escrevi explicando o nosso trabalho e pedindo qualquer tipo de apoio local: contatos, sugestões, etc. A resposta veio rápida, em um ou dois dias, com um texto que mostrava hospitalidade e camaradagem, avisando que nos esperaria na data avisada, e encerrando com uma despedida peculiar: “un abrazo revolucionário!”.

Foi assim que conhecemos o Favio Giorgio, figura essencial pra que a nossa viagem por lá tivesse os resultados que teve. O Favio (se diz “Fábio” …) é um argentino de Rosário – mesma cidade onde nasceu o Che – que morava em Vallegrande há uns dois anos. Ele foi para lá com um objetivo: trabalhar pela população da região que o Che percorreu com sua guerrilha. De alguma forma, e isso são palavras minhas, imagino que a idéia dele era tentar dar sequência aos projetos que o Che tinha para os povos da América Latina. Claro que, no caso do Favio, guardando as devidas proporções e entendendo as limitações de um jovem de pouco mais de 30 anos que se mudava para aquela região munido apenas de algumas economias e com a disposição de iniciar do zero um projeto voluntário.

© Marcelo Curia – Vallegrande – Bolívia – 2003

Nascia assim “A Rota do Che”, projeto iniciado pelo nosso amigo e depois encampado pela ONG Care Bolívia. A premissa era simples: criar uma infraestrutura mínima para receber turistas nos lugares que marcaram a passagem do Che pela região. Isso incluía a construção de albergues – normalmente um dormitório coletivo –, pequenos museus que contassem parte da história, e treinar os moradores ensinando-os quais eram os fatos relacionados ao Che que tinham ocorrido em cada lugar, para que eles fossem os guias dos eventuais turistas. O projeto se baseava numa idéia de autogestão dessa infraestrutura pelos moradores tão logo o trabalho estivesse concluído, gerando, assim, uma forma alternativa de renda.

Bastante interessante, mesmo que o projeto se resumisse a isso. Mas não se resumia. O projeto “Rota do Che” não estava apenas criando albergues ou coisas do gênero: construía pequenas escolas e bibliotecas, estimulava a gestão coletiva e, inevitável, revitalizava o pensamento do Che naquela região que não o havia compreendido nos idos de 1967. E o resultado mais marcante disso, afora as coisas materialmente visíveis que conhecemos, se via no carinho das pessoas com nosso amigo: todos, quase sem exceção – talvez a única fosse o casalzinho gringo do Peace Corps que o Favio não suportava por ver neles uma tentativa de influência yankee na população boliviana – admiravam e respeitavam a obstinação com que ele se dedicava ao projeto.

E nenhum momento foi mais marcante – e aí sim posso dizer que talvez tenha sido o mais marcante em toda a minha (não muito longa) quilometragem estradeira – do que a festa de aniversário que os moradores de La Higuera fizeram pra ele. O pequeno povoado onde morreu o Che, onde na época moravam exatas 108 pessoas, se reuniu para comemorar com aquele cara que, com pouco mais do que sua força de vontade, estava trazendo uma consciência e promovendo uma autoestima novas praquela gente. E, acima de tudo, o carinho das crianças que, tão logo souberam da nossa chegada no povoado, vieram correndo abraçá-lo, era algo que falava por si só.

Naquele dia de festas, com aquela gente simples que nos recebia de coração aberto, muito da experiência do Che na Bolívia passou a ter um sentido mais amplo. De novo me arrisco a falar por mim e pelo Curia, mas acho que saímos dali mudados. A unicidade daquele momento e daquele lugar tornou aquele dia algo realmente especial, sem o quê a viagem teria sido incompleta.

© Marcelo Curia – La Higuera – Bolívia – 2003

O projeto “Rota do Che” e a bravura do Favio foram essenciais pro sucesso daquela viagem. Mas também pra que nossa compreensão de quem foi o Che se consolidasse. Por isso hoje, quando se recorda seu assassinato naquela mesma La Higuera que nos ensinou tanto em tão pouco tempo, registro essa memória de um momento especial, com un abrazo (revolucionário!) carinhoso ao nosso irmão Favio Giorgio.

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Che – 8 de Outubro

© Marcelo Curia – La Higuera – Bolívia – 2003

Entre hoje e amanhã se recordam os 43 anos da morte de Che Guevara, na Bolívia. Duas datas de morte? Pode até parecer estranho, mas a confusão não foi acidental, e pros que não conhecem a história, aqui vão os fatos: no dia 08 de outubro de 1967 o Che foi capturado após um combate com os militares bolivianos num vale chamado Quebrada del Churo (também conhecido como Yuro em muitos dos livros que circulam por aqui) e logo levado prisioneiro para um pequeno povoado chamado La Higuera onde, no dia seguinte, foi executado a sangue-frio por um dos soldados do exército, a mando dos altos escalões em La Paz. Os militares bolivianos quiseram, a princípio, fazer circular a versão de que Guevara havia sido morto em combate, mas acabaram desmentidos porque, quando houve a apresentação do corpo à imprensa, já na cidade de Vallegrande, um jovem médico chamado Reginaldo Ustariz, que fotografava os acontecimentos para jornais de Cochabamba, percebeu que o cadáver não apresentava o rigor mortis, o que indicava que a morte havia ocorrido há poucas horas.

Assim, ainda que muitos movimentos políticos e revolucionários tenham adotado o nome 8 de Outubro (MR-8, por exemplo) como uma homenagem ao Che, o fato é que essa data (hoje) recorda o último combate do guerrilheiro, e sua morte aconteceu, efetivamente, no dia 09 de outubro.

Em 2003 eu e o Curia percorremos a região boliviana por onde passou a guerrilha entre fins de 1966 e o fatídico outubro do ano seguinte. Pra quem, como nós, já tem alguns quilômetros de rodagem por estas terras morenas, é meio difícil dizer que alguma entre tantas viagens – não muitas, mas algumas viagens – tenha sido melhor ou mais marcante que as outras. Mas o fato é que ter conhecido aquela parte isolada, quase perdida, da Bolívia teve sua marca especial, e é inevitável lembrá-la com carinho.

Talvez alguém que leia estas linhas possa pensar: “claro, os dois são guevaristas, e se emocionaram ao conhecer os lugares que marcaram a vida do Che!”. Mas isso seria uma explicação simplista. Obviamente que conhecer os lugares que já conhecíamos antes pelos livros – que nunca traziam fotos de lá, mas apenas relatos dos fatos – foi importante. Mas, mais do que isso, ver a mesma Bolívia que o Che viu foi o que nos marcou mais profundamente. Uma Bolívia que não deve ter mudado muito nesses 43 anos: pobre, isolada, carente de recursos, estrutura, esperanças. E percorrer a região da forma mais autêntica possível – viajando em caminhão, bagageiro de pick-ups, carros sem vidros em estradas poeirentas (e com um cachorro – o saudoso Al Capone, vulgo Alca – entre os passageiros!), caminhando à espera de caronas, compartilhando com os camponeses a comida, sua bebida, dançando, cantando, ensinando capoeira (a mais tosca que você puder imaginar, saudada entusiasmadamente pelos nossos amigos como “dança brasileira, dança brasileira!”), enfim … tudo isso nos aproximou daquelas gentes de uma forma que nenhuma outra viagem teria permitido.

Pra alguns, recordar a data da morte do Che é coisa de quem vive atrelado ao passado. Pra nós do Alter-Latina também é passado porque, acima de qualquer outra coisa, nos lembramos dessa viagem que – acho que falo pelos dois – marcou pra sempre nossas vidas, mas que, acima de tudo, marcou a nossa visão pro futuro.

As postagens que virão a partir daqui serão pra compartilhar um pouco do que vimos e vivemos lá. Serão também nossa homenagem ao guerrilheiro heróico, personagem que ainda estimula anseios de transformação por onde passa.

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