Os Caminhos da Prata (final)

Imagem © Marcelo Curia

O final dessa viagem foi contemplado com uma celebração completamente inesperada, sobre a qual já comentei dias atrás: o dia da Pachamama, quando os mineiros se reúnem para homenagear a mãe terra. Depois de dias em Potosí, e convivendo com os mineiros e suas dificuldades, aquela celebração teve um sentido intenso e complementar. Pois, afinal, aquele era um momento de extremo otimismo e alegria, mesmo em meio a uma vida repleta de incertezas.

Os mineiros bolivianos são, certamente, um dos coletivos mais mobilizados e aguerridos de nosso continente. A visão de sua realidade deixa claro os motivos para isso. Pois se não for através da mobilização dessa imensa força coletiva, pouco poderão esperar das autoridades constituídas.

Assumindo o risco de me tornar repetitivo, mas o fato é que a lembrança desse passado que tivemos a oportunidade de conhecer de forma bastante próxima é necessária, pois a realidade atual do continente insiste em querer repetir esses momentos de tragédia. A situação deste momento na Bolívia, onde comunidades indígenas em marcha foram reprimidas pelo governo que supostamente as representa e que tem seu compromisso com aquelas comunidades obscurecido por uma visão míope de desenvolvimento, é um bom exemplo disso.

Deixo aqui, como encerramento dessa pequena série de postagens, e agradecendo aos que a acompanharam, uma emotiva canção de um dos mais importantes grupos folclóricos bolivianos, o Savia Andina: “El Minero”.

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Os Caminhos da Prata (8) – Os mineiros

Eles se embrenham montanha adentro com quase que apenas seus capacetes e lanternas, deixando para o Tío a árdua tarefa de protegê-los num trabalho extremamente arriscado. As dinamites, que podem ser compradas livremente em qualquer barraca no lado de fora da montanha, estouram de tempo em tempo, fazendo tremer as galerias e cair uma chuva de pequenos fragmentos de rocha. O pó de sílica invade permanentemente seus pulmões, e em torno dos 40 anos de idade sua capacidade respiratória estará seriamente comprometida.

Essas são algumas das características do trabalho dos mineiros no Cerro Rico. É uma luta diária, sem tréguas, para a qual o ritual de preparo é sui generis: sentados em pequenos grupos, mascam folhas de coca e fumam cigarros de mineiros, além de ocasionais goles de álcool puro. Um ritual de batalha.

Do lado de fora, as mulheres, que são proibidas de entrar na montanha, fazem o trabalho de varredura do material que não foi aproveitado pelas cooperativas. As palliris ficam sob pequenas tendas que oferecem uma mínima proteção ao sol escaldante, remexendo o despojo das minas à procura de brilhos quase imperceptíveis que possam indicar a presença de algum minério que possa ser revendido. São migalhas, de proporções mínimas, que um olhar não acostumado certamente não perceberia. Mas elas percebem, sabem dizer quais minérios encontraram, numa improvável aula de geologia.

As palliris recebem a ajuda de alguns garotos, que trazem até elas os despojos das minas em carrinhos de mão. O trabalho infantil é um dos maiores problemas enfrentados ali. Proibido, mas sempre utilizado, em especial quando a cotação do minério despenca e os lucros caem. Nessas épocas, contratar crianças por salários mais baixos que os pagos ao minerador comum é uma prática bastante disseminada.

Mas como evitar esse problema? Pois, com a baixa expectativa de vida dos mineiros, várias famílias se vêem sem seu principal provedor quando os filhos ainda são bastante jovens. Tem-se uma ideia de que, normalmente, os mineiros iniciem sua rotina de trabalhos diários no Cerro Rico por volta dos 15 anos de idade, quando provavelmente já tenham se tornado os responsáveis pela manutenção de suas famílias.

Algumas ONGs trabalham na área com projetos de prevenção ao trabalho infantil mineiro. Prevenção, pois como afirmam, uma vez que uma criança entrou na mina, dificilmente sairá. Assim, essas ONGs trabalham com o que aqui chamaríamos séries iniciais, crianças de menos de 10 anos, provendo-lhes atividades recreativas e educacionais, e tentando inserir-lhes num circuito de educação formal que permita que seu futuro seja diferente do de seus pais.

Acompanhar um dia de trabalho nessas escolas espalhadas no entorno da montanha, algumas até mesmo em pontos altos dela, nas quais os pequenos recebem cuidados enquanto seus pais estão imersos no interior da terra, é ao mesmo tempo bonito e triste. Bonito por ver o trabalho de pessoas dedicadas e atenciosas, por ver as crianças recebendo uma forma especial de carinho para com as suas vidas. Mas é bastante triste, quando pensamos em quais podem ser os destinos reservados àquelas figurinhas tão especiais, vítimas ainda hoje dessa ferida permanente que sangra as terras latinoamericanas.

Imagens © Marcelo Curia

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Os Caminhos da Prata (7) – Cerro Rico

A montanha que gerou riqueza e que despertou a cobiça dos espanhóis fica a poucos minutos do centro histórico de Potosí. Para lá vão, ainda hoje, centenas de trabalhadores que tiram, das profundezas da terra, o sustento precário das suas famílias. O auge do ciclo de exploração de prata já havia terminado no século XVIII, mas a montanha ainda se mostraria rica: no século XIX tinha início a exploração do estanho, minério que hoje movimento a atividade por lá.

A visita ao Cerro Rico é, possivelmente, o ápice de uma ida a Potosí. E talvez porque, muito provavelmente, as condições de trabalho que se encontram ali sejam tão precárias  quanto as da época da colônia, obviamente guardadas as características desses momentos históricos distintos. Mas o fato é que se embrenhar ao longo dos labirintos que conduzem a galerias situadas a até 400 metros de profundidade, atravessando túneis estreitos e utilizando de escadas de madeira posicionadas ao lado de abismos escuros, dos quais não se tem noção da profundidade, é um trabalho bastante arriscado. Também o calor, maior quanto mais fundo se desce, ajuda a criar um ambiente de extrema dificuldade.

Os mineiros lidam com isso com uma das principais ferramentas de seu trabalho: a folha de coca, hábito largamente difundido e que cria uma imagem bastante tradicional daqueles trabalhadores: as bochechas inchadas por maços de folha de coca que, após mascadas, tem seu sumo continuamente sugado, com novas folhas sendo ingeridas de tempo em tempo para renovar o caldo.

A proteção a esses mineiros é dada pelo Tio, a deidade que  habita as profundezas da terra. Fruto do sincretismo religioso gerado pela cristianização dos povos andinos, o Tio é um misto do diabo da religião católica com o Supay, o deus andino que mora no interior da terra. Quase todas as minas possuem uma pequena cova colocada próximo à entrada, onde o Tio aguarda as oferendas: são folhas de coca, cigarros artesanais, álcool.  E as sextas feiras podem reservar pequenas celebrações nas quais os mineiros bebem e fumam junto ao Tio.

Imagens © Marcelo Curia

Mas não é só no trabalho que o Tío oferece sua ajuda. Reconhecido como viril, ele se mantém em ereção permanente, de forma a auxiliar os mineiros em outros momentos da sua rotina …

 

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Os Caminhos da Prata (6) – Potosí

Não há como não se impressionar com Potosí. Ainda mais aqueles que têm alguma noção  de toda a história que se passou ali, e da grandeza que essa cidade possuía no período colonial. Pois se ainda hoje  quando se vai até lá, com estradas asfaltadas mas inegavelmente precárias e que cruzam pelas imensidões desoladas do altiplano, parece se estar chegando a algum outro universo, imagino como seria o acesso nos séculos XVI e XVIII àquela localidade afastada de tudo.

E mesmo assim, com todas essas dificuldades, a cidade se tornou uma das maiores do mundo à sua época. Os sinais da riqueza que fluía dali estão presentes pelas ruas do centro histórico nas muitas Igrejas, nas mansões imponentes. Várias dessas mansões são hoje albergues ou hotéis, enquanto algumas igrejas abrigam o rico acervo artístico construído no período do auge da extração da prata. Pois os senhores das minas, junto com o clero, desejavam construir ali uma sociedade nos moldes europeus, e traziam artistas, pintores, músicos, para levar aos indígenas o aprendizado na arte do velho continente.

Um dos principais acervos se encontra no museu da Casa da Moeda, talvez o principal da cidade, e com certeza o mais imponente. A Casa, uma das três construídas pelos colonizadores para a fundição do metal e a cunhagem de moedas na América espanhola, oferece um percurso pela arte desenvolvida em Potosí, quase sempre com motivos sacros, além de manter acervo pré-hispânico, e as moedas que eram forjadas ali.

 Imagens © Marcelo Curia

Em meio às caminhadas (quase) sem fôlego pelas ruas da cidade, é inevitável a lembrança das palavras de Eduardo Galeano:

“Dicen que hasta las herraduras de los caballos eran de plata en la época del auge de la ciudad de Potosí. De plata eran los altares de las iglesias y las alas de los querubines en las procesiones: en 1658, para la celebración del Corpus Christi, las calles de la ciudad fueron desempedradas, desde la matriz hasta la iglesia de Recoletos, y totalmente cubiertas con barras de plata. En Potosí la plata levantó templos y palacios, monasterios y garitos, ofreció motivo a la tragedia y a la fiesta, derramó la sangre y el vino, encendió la codicia y desató el despilfarro y la aventura”.

(Eduardo Galeano. Las Venas Abiertas de América Latina.Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2010, p. 37)

 

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Os Caminhos da Prata (5) – Potosí

A prata

Poucos recursos são capazes de explicar processos aparentemente distantes como a formação do sistema capitalista europeu e a consolidação do processo colonial nas colônias do novo continente quanto a prata encontrada no altiplano andino. Reconhecendo a importância da busca por estoques de minerais metálicos como móvel da expansão colonial ibérica, as minas de prata localizadas no Cerro Rico de Potosí foram responsáveis por todo o arranjo das economias regionais nas colônias espanholas, como também tiveram influência central para a consolidação do então incipiente sistema capitalista europeu.

Descobertas em 1545, apenas dois anos após a criação do Vice-Reino do Peru, as reservas argentíferas do altiplano boliviano eram a recompensa ansiada pelos conquistadores espanhóis, que após o saque dos tesouros mantidos pelo Império Inca buscavam fontes de riqueza que permitissem a continuidade da empresa, não só financiando-a como também garantindo os recursos que viabilizassem a manutenção de uma Coroa espanhola reconhecidamente perdulária.

Ainda que seja difícil estipular em volumes precisos a quantidade de prata extraída da montanha, o dito popular fala em metal suficiente para a construção de uma ponte unindo Potosí à Europa. Exageros à parte, o fato é que a exploração dos veios metálicos naquela região remota do altiplano acabou por tornar-se o eixo central da presença espanhola na América naquele período. O apogeu dos ciclos exploratórios fez crescer, a mais de 4.000m de altitude, uma das maiores aglomerações urbanas de todo o mundo à época, cujos levantamentos populacionais apontam números que se aproximam dos 150.000 habitantes (maior do que Sevilha, a sede da Coroa). Tal concentração populacional em uma região em que praticamente nada se produzia deu origem a uma articulação regional que movimentava a economia de regiões distantes no vice-reino que cumpriam funções de abastecimento à cidade mineira. Do norte do Peru, passando por Paraguai e chegando à distante Buenos Aires (1.800km), criavam-se especializações produtivas, numa verdadeira divisão regional do trabalho, com fluxos constantes de produtos diversos (cereais, carne, tecidos, pescado, erva-mate, coca), pelos quais também escoava a prata.

A característica perdulária de uma Espanha endividada pela facilidade de obtenção de capitais através da garantia oferecida pelas reservas metálicas aparentemente inesgotáveis acabou por distribuir esta riqueza pelo continente europeu, em especial às casas bancárias holandesas.

O fim do apogeu do ciclo exploratório, em meados do século XVII, lançou a Espanha numa crise, fazendo-a perder o papel central exercido até aquele momento. Nas colônias, afora a decadência do próprio centro mineiro (ainda hoje uma das regiões mais pobres da Bolívia), a prata deixou como legado a própria gênese de determinadas regiões em suas características econômicas ainda hoje predominantes.

Imagens © Marcelo Curia

(O texto é de minha autoria, e foi publicado originalmente na “Coleção História de A a Z [volume 3]: Idade Moderna”, da Editora Duetto).

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Os Caminhos da Prata (4) – Na estrada para Potosí

“Os vencidos não viram a expansão européia no continente como uma façanha civilizatória evangelizadora porque não encontraram motivos para isso. O que viram e sofreram foi a destruição de suas formas de vida, de sua organização social, de suas crenças. Povos inteiros foram arrasados, os governantes eliminados ou humilhados, os deuses destruídos. Evidentemente, aquilo não foi um ‘encontro’ de dois mundos, mas sim um choque violento que trouxe para uma das partes – os povos nativos – um terrível dilema: a morte ou a subjugação. Finalmente, o resultado desse choque foi a apropriação brutal, por parte dos recém chegados, da pessoa dos nativos, de suas terras, suas riquezas, seus povos e cidades. Daí surgiu não uma mera convivência de culturas ou mundos, mas sim antes de tudo uma relação entre dominadores e dominados” (Hector Diaz-Polanco, El Canon Snorri, 2004: 48; tradução própria)

Partimos de Parinacota numa manhã gelada do altiplano. O destino: Potosí. Para cumprirmos a meta foram necessárias duas caronas: a primeira, num veículo militar, nos trouxe do povoado até a autoestrada que une o Chile à Bolívia. Lá, depois de pouco mais de uma hora de espera, um caminhoneiro chileno nos recebeu como companhias para cruzar a fronteira em direção a Oruro, já na Bolívia.

Para os mochileiros, a estrada é um atrativo à parte. Cruza por dois parques nacionais: o Lauca, no Chile, onde a poucos quilômetros da fronteira se passa às margens do lago Chungará, que oferece uma visão espetacular dos vulcões da região; e o Sajama, na Bolívia, onde o nevado de mesmo nome molda a paisagem. No limite entre os dois países, o complexo fronteiriço do lago Chungará, a 4.650 metros de altitude, é possivelmente um dos mais altos do mundo.

A estrada deixa para trás os pequenos povoados onde as torres e portais das Igrejas recordam permanentemente o processo de colonização sofrido por aquelas terras. Em pouco mais de um dia de viagem chegaríamos ao centro de todo aquele processo.

Imagens © Marcelo Curia

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Os Caminhos da Prata (2) – Putre

É fato que a colonização da América Latina foi fortemente marcada pelo pensamento cristão, ainda bastante influente na política e na sociedade européia do século XVI. A catequização dos povos originários cumpria uma função fundamental para o processo colonial: a colonização do pensamento, como bem o afirma o sociólogo peruano Aníbal Quijano. Também é fato que, dado o peso dessa pressão metafísica, os colonizadores erguiam Igrejas por todos os cantos por onde passavam, como numa espécie de agradecimento pelas riquezas encontradas.

Nos caminhos que uniam Potosí a Arica, diversos entrepostos surgiram para controle do tráfego da prata. Neles, invariavelmente, Igrejas eram construídas. Hoje, algumas dezenas delas, construídas entre os séculos XVI e XVII, resistem ao tempo em pequenos povoados isolados do fluxo da autoestrada que une o Chile à Bolívia. Relíquias desse passado colonial, convenientemente esquecidas pelos grandes roteiros turísticos.

Putre, a 3.500m de altitude, abriga uma dessas igrejas, construída em 1670. O povoado de pouco mais de 1.200 habitantes surgiu  em 1580 e, assim como outros lugares da região, teve apogeu e queda ligados à extração da prata do Cerro Rico.

Foi lá que, conversando com um morador, ouvi uma frase que considerei bastante emblemática para compreender os atuais processos de mobilização indígena no continente. Ele, um aymara, me disse que “nós um dia fomos bolivianos, em outro peruanos, depois chilenos; e ao final nos damos conta de que apenas uma coisa permanece: somos aymaras!”.

Um pensamento que contribui bastante a entender a forma de vida desse lugar cuja extrema tranquilidade só é abalada, vez que outra, pelos tremores de terra que sacodem o chão e fazem tremer as paredes. Tivemos essa experiência numa das noites que ficamos por lá, e podemos dizer: é algo muito estranho. Mas os moradores pareciam bastante acostumados: o tremor era apenas mais um entre outros assuntos na praça animada, numa típica tarde de sol andino.

Imagens © Marcelo Curia

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Os Caminhos da Prata (1) – O porto de Arica

Iniciar a viagem pelo litoral do Pacífico era a escolha mais racional para o nosso percurso. Afinal, era por ali que a riqueza extraída do altiplano era enviada à Europa. Os portos exerciam – e ainda exercem – papel fundamental nas economias baseadas no extrativismo voltado à exportação. Um olhar para a geografia do nosso continente vai mostrar que as principais cidades dos países daqui estão sempre próximas ao litoral, quando não estão diretamente localizadas na costa. E sempre, sem exceção, estão associadas a um porto importante, por vezes o principal de seu país.

Com Potosí não era diferente, e Arica era o seu “porto natural”: localizada a pouco menos de 1.000km de distância das minas do Cerro Rico, Arica viveu seu apogeu e sua queda diretamente relacionados ao volume de prata que se extraía do altiplano andino.

Quando ocorreram as independências dos países sul-americanos, Arica pertencia ao Peru. Essa situação mudou após a Guerra do Pacífico (1879-1883) travada entre o Chile e a aliança entre Bolívia e Peru, e vencida pelos chilenos que ocuparam toda a antiga faixa litorânea boliviana, e a porção sul do litoral peruano. Hoje, no cerro de Arica, principal marco da paisagem local às margens do Pacífico, a bandeira chilena tremula, recordando as batalhas que tiveram aquele morro como palco. Outra das heranças da guerra é a estação de trens da hoje desativada linha que unia Arica a La Paz, na Bolívia. A linha férrea unindo os dois países era parte das indenizações acordadas entre o Chile e a Bolívia pela perda do litoral boliviano.

Imagens © Marcelo Curia

Uma das curiosidades referente às riquezas que circulavam por aquele porto foi a passagem do famoso pirata “Sir” Francis Drake. Na sua biografia há um relato de uma batalha travada entre os homens de Drake e a população da cidade. Drake rondava os portos sul-americanos em busca da prata que era embarcada ali. Hoje, no cemitério de Arica, uma tumba leva o nome do famoso personagem, mas não se sabe ao certo quem foi enterrado ali.

Há uma lenda de que Drake, em fuga após sofrer bombardeio vindo da cidade, enterrou na região um carregamento com 800 barras de prata e 123 de ouro. Um atrativo interessante para caçadores de tesouros perdidos que estiverem de passagem por lá.

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Os Caminhos da Prata

Já comentei isso por aqui: é difícil que alguém que tenha lido “As Veias Abertas da América Latina” não tenha ficado impressionado com os relatos sobre Potosí. Mesmo que o livro não economize em histórias trágicas de nosso continente – o que, aliás, faz com que seja rejeitado em determinados meios acadêmicos – acredito que as páginas sobre a cidade que cresceu a mais de 4.000 metros de altitude em razão da maior mina de prata já registrada na história de nosso continente sejam as mais marcantes.

Motivos para isso não faltam: a imensa riqueza extraída das entranhas do Cerro Rico, o crescimento da cidade que se tornou uma das maiores do mundo no século XVII mesmo que num ambiente dos mais inóspitos e, principalmente, os requintes de crueldade com que os espanhóis tratavam os indígenas submetidos a trabalhos forçados.

Para além desses relatos, o fato é que Potosí e o Cerro Rico foram responsáveis por boa parte da organização espacial de nosso continente. Fosse pela prata que baixava do altiplano em direção ao litoral, fosse pela necessidade de suprimentos diversos para abastecer a população crescente da cidade, a exploração da prata de Potosí definiria funções para diferentes cidades e regiões dos domínios coloniais espanhóis que permanecem até hoje.

Em 2004, eu e o Curia – mais o acompanhamento luxuoso de nosso amigo Roberto Azambuja – resolvemos refazer os caminhos percorridos pelo metal que havia despertado a cobiça dos espanhóis, e alterado a história das terras sul-americanas e, também, européias. Fazendo o percurso no sentido inverso, iniciando a viagem no porto de Arica, no norte do Chile, percorremos o altiplano buscando as heranças deixadas por esse momento histórico. Esse trabalho foi chamado “Os caminhos da Prata”, e foi publicado nas revistas Terra e História Viva.

Então, aproveitando este momento no qual o extrativismo é ponto central na pauta político-econômica sul-americana, retomamos o relato dessa viagem numa pequena série de postagens que se inicia amanhã. E você está convidado a acompanhar.

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Agosto – Mês da Pachamama

Não sei se isso serve pra toda a cultura ocidental, mas o fato é que ao menos por aqui (Brasil) o mês de agosto é tido como um mês de mau agouro. “Agosto, mês do desgosto”, ou “o mês do cachorro louco”, são expressões que muitos já devem ter escutado. Bastante diferente é a relação dos povos andinos com o oitavo mês do calendário. Para eles, agosto é mês de festa, mês de celebrar uma das principais divindades do panteão andino: a Pachamama.

O termo Pachamama – normalmente traduzido como “Mãe-Terra” – refere-se a “Pacha”, em vocabulário compartilhado tanto por quechuas quanto por aymaras para designar o “espaço-tempo” vistos em sua relação conjunta, e não como instâncias isoladas entre si. É, assim, uma expressão de significado amplo, expressando toda uma cosmovisão na qual se vê a terra como ser vivente com o qual os povos andinos estabelecem uma relação de complementaridade, já que é dessa relação harmoniosa que poderão receber os meios necessários à sua subsistência. Assim, em especial no primeiro domingo de agosto, mas também ao longo de todo o mês, as comunidades andinas rendem homenagens à Pachamama, fazendo oferendas para que ela retribua com sua fertilidade e abundância.

Fomos saber dessa história um tanto por acaso. Foi há alguns anos, num domingo, poucos dias antes de eu e o Curia encerrarmos uma estada de uma semana em Potosí, na Bolívia, quando fomos até o Cerro Rico para uma última visita de entrevistas e fotos. Estranhamente, o cerro estava praticamente vazio: não se via a movimentação rotineira de mineiros, afora umas poucas mulheres e crianças na parte baixa da montanha. E, por vezes, um pipocar de fogos de artifício que não se sabia bem de onde vinham. Foi então que um dos garotos com quem ficamos conversando nos explicou o motivo, e nos convidou a encontrar uma das festividades que estavam acontecendo em pontos isolados da montanha.

 

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