
Eles se embrenham montanha adentro com quase que apenas seus capacetes e lanternas, deixando para o Tío a árdua tarefa de protegê-los num trabalho extremamente arriscado. As dinamites, que podem ser compradas livremente em qualquer barraca no lado de fora da montanha, estouram de tempo em tempo, fazendo tremer as galerias e cair uma chuva de pequenos fragmentos de rocha. O pó de sílica invade permanentemente seus pulmões, e em torno dos 40 anos de idade sua capacidade respiratória estará seriamente comprometida.
Essas são algumas das características do trabalho dos mineiros no Cerro Rico. É uma luta diária, sem tréguas, para a qual o ritual de preparo é sui generis: sentados em pequenos grupos, mascam folhas de coca e fumam cigarros de mineiros, além de ocasionais goles de álcool puro. Um ritual de batalha.
Do lado de fora, as mulheres, que são proibidas de entrar na montanha, fazem o trabalho de varredura do material que não foi aproveitado pelas cooperativas. As palliris ficam sob pequenas tendas que oferecem uma mínima proteção ao sol escaldante, remexendo o despojo das minas à procura de brilhos quase imperceptíveis que possam indicar a presença de algum minério que possa ser revendido. São migalhas, de proporções mínimas, que um olhar não acostumado certamente não perceberia. Mas elas percebem, sabem dizer quais minérios encontraram, numa improvável aula de geologia.

As palliris recebem a ajuda de alguns garotos, que trazem até elas os despojos das minas em carrinhos de mão. O trabalho infantil é um dos maiores problemas enfrentados ali. Proibido, mas sempre utilizado, em especial quando a cotação do minério despenca e os lucros caem. Nessas épocas, contratar crianças por salários mais baixos que os pagos ao minerador comum é uma prática bastante disseminada.

Mas como evitar esse problema? Pois, com a baixa expectativa de vida dos mineiros, várias famílias se vêem sem seu principal provedor quando os filhos ainda são bastante jovens. Tem-se uma ideia de que, normalmente, os mineiros iniciem sua rotina de trabalhos diários no Cerro Rico por volta dos 15 anos de idade, quando provavelmente já tenham se tornado os responsáveis pela manutenção de suas famílias.
Algumas ONGs trabalham na área com projetos de prevenção ao trabalho infantil mineiro. Prevenção, pois como afirmam, uma vez que uma criança entrou na mina, dificilmente sairá. Assim, essas ONGs trabalham com o que aqui chamaríamos séries iniciais, crianças de menos de 10 anos, provendo-lhes atividades recreativas e educacionais, e tentando inserir-lhes num circuito de educação formal que permita que seu futuro seja diferente do de seus pais.
Acompanhar um dia de trabalho nessas escolas espalhadas no entorno da montanha, algumas até mesmo em pontos altos dela, nas quais os pequenos recebem cuidados enquanto seus pais estão imersos no interior da terra, é ao mesmo tempo bonito e triste. Bonito por ver o trabalho de pessoas dedicadas e atenciosas, por ver as crianças recebendo uma forma especial de carinho para com as suas vidas. Mas é bastante triste, quando pensamos em quais podem ser os destinos reservados àquelas figurinhas tão especiais, vítimas ainda hoje dessa ferida permanente que sangra as terras latinoamericanas.
Imagens © Marcelo Curia